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Fonte: Diário do Nordeste |
Aos 36 anos, já farmacêutica e mestre, Mariana persistiu rumo ao sonho de ser médica por uma universidade pública
“O resultado vem. E se vier do jeito que a gente quer, melhor ainda. Te amo.” Foi um dos muitos áudios que Homero enviou à filha, Mariana Costa, 36, antes de partir, na semana do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2024.
Mesmo com o peito “doendo muito” pela morte repentina do pai, ela fez a prova. O áudio dele, nesta semana, se revelou como presságio: o resultado veio.
Após quatro tentativas, um câncer de mama e a perda do “além de pai, grande amigo”, ela passou em Medicina.
Ano que vem, então, a cearense de Fortaleza vai fazer de Juazeiro do Norte a nova casa: as salas de aula da Universidade Federal do Cariri (UFCA) serão o cenário de “recomeço”.
Mariana é daquelas histórias que ganham o mundo: mesmo farmacêutica formada e mestre pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com emprego estável, em cargo de liderança, não largou o sonho de ser médica.
“Quando me formei e comecei a receber como farmacêutica, eu comecei a juntar dinheiro pra três coisas: cuidar da saúde da minha mãe, viajar e, quem sabe um dia, parar de trabalhar e tentar fazer algo que movesse meu coração”, diz, em entrevista.
O plano de sair do emprego foi posto em prática em 2021, em plena pandemia. Mariana entrou no cursinho preparatório para o Enem, na sede da Av. Duque de Caxias do Colégio Ari de Sá, do SAS Educação. Nos dois primeiros anos, a dedicação foi exclusiva.
“Tive resultados bons, mas não satisfatórios pra entrar em uma faculdade pública no Ceará. E era o que meu coração pedia: sou cria de uma universidade pública e tinha muita vontade de retornar”, relembra a farmacêutica.
2023 entrou. Seria o ano da terceira tentativa de passar no Enem. “Comecei a jornada muito empolgada, me sentindo muito preparada.
Mas logo em 1º de março recebi o diagnóstico de câncer de mama, o que mudou totalmente a rota das coisas”, relembra a farmacêutica.
O sonho de ser médica, porém, não se tornou obstáculo: foi combustível. “A possibilidade de realizar um sonho foi muito importante para que eu seguisse no tratamento. É muito agressivo, passei pela quimioterapia de maio a setembro daquele ano. Fiquei sem energia, com dores, o cabelo caiu. O estudo se tornou uma válvula de escape.”
Se de um lado uma aprovação em Medicina exigia uma rotina rigorosa de estudos, do outro o câncer não obedecia a regras: complicações ainda em torno da doença levaram Mariana a uma sala de cirurgia pouco antes do primeiro dia do Enem 2023.
“Fui fazer as provas com marcas, com dores pelos procedimentos. Mas fiz, e, por incrível que pareça, foi a minha melhor nota nos 4 anos de estudos. Isso me motivou bastante. Apesar de toda a turbulência, sentia que as coisas estavam no caminho certo.”
A vida, ela entendeu, não se resumia à doença nem ao tratamento. Era uma parte, e “iria passar”, como ouvia de dona Jamile, que conheceu na fila da quimioterapia.
Para isso, cuidar da saúde mental na terapia, se encantar pela pintura, pelos livros que dormiam empoeirados na prateleira e pelas risadas regadas a cerveja e karaokê com os amigos, então, foi mandatório.
“Foi turbulento, mas tentei não tornar a doença mais pesada do que já é. Tive dias péssimos, mas sempre tive alguém pra me ajudar. Respeitei meu corpo, fiz atividade física, tive hobbies. Recebia olhares que eu não gostava, mas também olhares de força”, recorda Mariana.
O Enem de 2023, apesar de tudo, trouxe aprovações. A cearense poderia optar por se formar médica em Roraima, Minas Gerais ou Rio de Janeiro. Mas não era isso. Ainda não era lá onde “o coração bateria mais forte”.
Em 2024, então, a busca seguiria. Mariana voltou a trabalhar após o câncer, ainda com o cabelo crescendo e o corpo se recuperando, e passou a conciliar os plantões noturnos como farmacêutica com os estudos pela manhã.
Foi o ano inteiro assim, até chegar novembro, mês do Enem. Sábado, véspera da prova, recebeu do pai um vídeo da banda Simply Red, cujo show no dia 15 de março de 2025, em São Paulo, já estava com o par ingressos comprados. Iriam juntos ouvir ao vivo o que tocava em casa desde a infância.
Domingo, primeiro dos dois dias de Enem, foi cumprido com sucesso. Agora, faltava só uma semana para Mariana cumprir o 4º e, quiçá, último exame da vida.
Da prova, foi ao trabalho, para mais um plantão noturno. E no dia seguinte, de manhã, começaria tudo de novo: estudo, revisão, preparação para o segundo dia de Enem. A segunda-feira, porém, tirou a vida dos trilhos. De forma repentina, seu Homero faleceu aos 62.
“Eu não acreditava que aquilo estava acontecendo. Não tive oportunidade de me despedir do meu pai. Na terça-feira, ele foi velado, e no domingo fiz a segunda prova. No meu planejamento, nada disso fazia parte. Me questionei muito se aquilo era pra mim mesmo”, relembra Mariana. Como raras vezes, pensou em desistir. Não era um opção.
“Não tinha energia pra fazer a segunda prova, até que um amigo me lembrou o que eu meu pai me falou em 2023, quando fiz o Enem chorando de cansaço: ‘não vai adiantar nada chorar agora, a única coisa que vai adiantar é você entrar na sala e fazer a melhor prova. Você me entendeu?’ Enxuguei as lágrimas e entrei. Lembrar disso me deu força.”
Futura médica pela UFCA
A nota do quarto Enem, diante de tudo, não tinha sido das melhores. Mas Mariana seguia no páreo. No Sistema de Seleção Unificada (Sisu) 2025, ela se colocou na lista de espera para uma vaga em Medicina na UFCA. Por desencargo, sem expectativa. Ocupava o 12º lugar.
“Algo me disse que eu deveria ir pra lá, pro Cariri. Não sei explicar, mas acredito em chamamentos. Segui minha vida, e tava trabalhando quando uma amiga me ligou avisando que eu tinha sido aprovada”, sorri Mariana.
A notícia veio em 21 de março, seis dias após o show da Simply Red – ao qual a cearense foi vestida com uma camisa em homenagem ao pai.
“A vida foi muito generosa comigo e com o meu pai. Nem sempre tivemos contato e a intimidade que adquirimos, mas os 5 últimos anos foram incríveis: perdi mais do que um pai, perdi um amigo. Pai a gente não escolhe quem gerou, mas amigo a gente escolhe.”
Além do apoio emocional do pai, Mariana cita o suporte integral oferecido pela mãe, com quem divide casa, rotina e sonho.
“O estudo envolve muita coisa: você precisa de alguém pra fazer sua comida, arrumar sua casa, fazer seu café. Não teria conseguido isso sozinha. Em 2023, minha mãe me disse: ‘o que me move agora é fazer você realizar o seu sonho’.”
Entre frases-afagos dos áudios deixados por seu Homero e da voz presente da mãe Moema, a futura médica pela UFCA prepara a mudança para o Cariri. Agora, vai viver um sonho dentro do sonho: além de médica, quer o carimbo de oncologista, especialidade que já queria seguir antes mesmo do diagnóstico do próprio câncer em 2023.
A certeza de que a vida recomeça agora, trajada em jaleco branco e em sonhos, se fortaleceu quando Mariana ligou para dar a notícia da aprovação para dona Jamile, aquela que conheceu na quimioterapia. Em resposta, ganhou uma memória: “Tudo vai passar, Mariana, mas isso não. Parabéns!”
Fonte: Diário do Nordeste
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